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Unidade Vila São Francisco

Por que o acidente com o navio Ever Given chamou tanto a atenção da mídia global?

Faz tanto tempo que o canal de Suez não ganha destaque nos jornais que acredito que a maioria dos nossos alunos e vestibulandos não tinham ideia da sua real importância. Falamos da globalização, das redes sociais, marcas globais e esquecemos que nada disso faria sentido sem o transporte de mercadorias.

O canal de Suez foi inaugurado em 1869, pelo então Império Otomano, posteriormente esteve sobre controle britânico, foi nacionalizado pelo presidente egípcio Gamal Abdel Nasser e alvo de disputas envolvendo Israel no controle da península do Sinai. Só pela introdução dá para ter uma ideia de que o local é de extrema importância econômica e geopolítica.

Números atuais. Após as obras de ampliação feitas pelo Egito em 2015, por ano 19.000 cargueiros passam por suas águas, incluindo 5.000 petroleiros. Estes números representam 12% do comércio global ou ainda US$ 9,6 bi/dia. Entre 23 e 29 de março de 2021, período que o canal ficou fechado 369 navios ficaram parados aguardando sua liberação. Os prejuízos podem alcançar US$ 300 bi. Essa matemática não é tão simples. É evidente que a maior parte das mercadorias vão chegar aos seus destinos, exceto os perecíveis e cargas vivas, isto mesmo, cargas vivas que podem não resistir ao prazo excedido. Porém, podemos imaginar as multas pelos atrasos, custos adicionais nas apólices de seguro, prejuízo para o Egito e para a operadora do canal que arrecadam com a passagem dos navios e para encerrar, esta que poderia ser uma longa lista, o tempo parado, que certamente os cargueiros estariam realizando outras viagens. Vamos imaginar que você comprou um caminhão, desembolsou algumas centenas de milhares de reais e agora este caminhão vai ficar parado por uma semana. Prejuízo na certa. Capital investido em uma máquina que está parada. Vamos agora extrapolar este cálculo para 369 cargueiros aguardando por 6 dias para retomar suas rotas.

No atual nível de complexidade do capitalismo que vivemos, tudo vai ficando mais complicado. O cargueiro Ever Given pertence a uma empresa japonesa, mas é operado por uma empresa de Taiwan, a Evergreen, e usa bandeira do Panamá. Dá para imaginar o embate jurídico daqueles que tiveram prejuízo com a paralisação causada pelo acidente?

Até agora nada explica o acidente do dia 23 de março. Vento forte, tempestade de areia, falha técnica, falha humana ou tudo junto e misturado. Num primeiro momento o que interessa é que aconteceu e o mundo parou e sentiu sua fragilidade. Como se não bastasse a pandemia, as variantes da Covid-19, agora sabemos como o mundo é frágil também na logística.

Mas não existe outra rota? Claro que sim.

Porém, em boa parte dos casos, isto significa contornar o continente africano, um acréscimo de 9.000 km e 12 dias queimando combustível, com dificuldade de reabastecimento, cuidados com a tripulação e ainda navegar novamente nas águas da Somália, local com um dos maiores índices de ação de piratas do mundo.

Agora resta uma dúvida. Qual o motivo da demora para desencalhar o Ever Given? Vamos lembrar que estamos falando de um navio de 400 metros de comprimento, ou seja, quatro campos de futebol e 200.000 toneladas. Agora dá para ter uma ideia da dificuldade. A sugestão inicial de retirar o combustível e os containers para ajudar na flutuação, isso levaria muito tempo, não existe este tipo de equipamento no meio do canal. Restou o uso de retroescavadeiras e rebocadores tentando desencalhar a embarcação.

Aparentemente sem chance de sucesso. Falta aqui um detalhe de extrema importância. A Lua! Lua? Em 28/3 iniciava a semana de Lua Cheia e pode não parecer, mas faz toda a diferença. O alinhamento do Sol, Lua e Terra que ocorre na Lua Cheia ou Nova provoca a maré de Sizígia, quando o nível da maré pode subir até dois metros (questão da Unicamp, 2013). Resumindo, com muito trabalho das máquinas e dos rebocadores, somado a uma força dada pela Lua, em 29 de março o cargueiro estava flutuando novamente e o canal liberado. Cabe agora a regularizar o fluxo de carga, análises dos prejuízos, embates jurídicos e sobretudo a criação de planos de contingência para estas e outras situações inusitadas.